segunda-feira, 19 de maio de 2008

Discurso e Linguagem

POR CAROLINE DURAND

A maneira como o jornalista retrata a realidade, hoje e no passado, foi o tema central no Grupo Temático Jornalismo e Linguagem do Congresso. Cerca de 20 pessoas, entre estudantes de jornalismo, repórteres, alunos de doutorados e mestrados participaram do GT no último dia do evento.

Primeira a apresentar seu trabalho de pesquisa A crônica e o Jornalismo, a doutoranda da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Silvânia Siebert, criou polêmica. "A crônica, antes de ser um gênero literário, é jornalístico", declarou. Ela explicou que desde o início do século XIX, o estilo é publicado em jornais, tratando do cotidiano das pessoas. "A reportagem mostra a realidade do fato, o cronista fala o que pensa, o que diferencia os dois gêneros", discordou um dos repórteres presentes.

Após essa opinião, compartilhada por escritores, algumas das pesquisadoras de comunicação selecionam o que é importante e como o escrevem comprovam a subjetividade intrínseca à matéria. Outra expositora, Ângela Aguiar, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), disse que existe a ilusão da objetividade, mas que precisa existir. Ela compartilhou a conclusão de (In)diretas quae sera tamen: movimento(s) deconciliação no discurso jornalístico sobre as diretas.

Fernanda Carrera, mestranda da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi a segunda a se apresentar, com o trabalho A evolução do sentido da notícia: um estudo sobre o percurso discursivo das matérias significantes no jornalismo impresso. Com uma análise histórica, Fernanda concluiu que atualmente, o que diferencia os jornais é a linguagem, pois o conteúdo a maioria dos impressos consegue, então, é o mesmo.

Giovanna Benedetto, da Unicamp, mostrou as contradições de dois impressos do século XIX que se diziam lutar pela independência do Brasil. Mas, segundo a análise feita em A (In)dependência da imprensa brasileira no século XIX: os discursos do Revérbero Constitucional e da Gazeta do Rio de Janeiro, o discurso e a linguagem demonstravam ligação ainda com a monarquia, quando, por exemplo, elogiavam o rei.

Desigualdades Sociais disfarçadas de progresso

POR ANDRÉ KANO

Debate usa cinema como tela para mostrar a cara feia do desenvolvimento brasileiro

A temática era o cinema, mas foram as questões sociais que deram o tom de um debate que reuniu estudiosos na Universidade Federal Fluminense (UFF) na manhã dessa quinta-feira, dia 16 de maio. A apresentação da professora Vera Lúcia Follain gerou, além de aplausos, discussões sobre como cineastas têm desenvolvido trabalhos que revelam as contradições de uma sociedade desigual.

Além de Follain, os doutorandos Mariana Baltar e Ivan Cappeler também participaram do debate, que foi uma das 19 atividades do Congresso.

Um dos vieses mais abordados foi o da relação entre tempo e espaço para explicar a condição social. Para Follain, a visão criada e projetada de que a modernidade e o bom estão nos centros urbanos, onde se produz a cultura, gerou a idéia de que o deslocamento no espaço também gera um deslocamento no tempo. Follain explica o conceito:

"Quando uma pessoa sai do interior e vem à cidade tentar sorte melhor, ela está fazendo um movimento no espaço. Porém, há um movimento no tempo, porque ir à cidade também significa sair de condições que se assemelham ao passado e ir de encontro à modernidade e tecnicidade que representam o futuro", afirma a debatedora.

Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, foi um dos filmes citados para exemplificar como o cinema critica essa noção apontada pela professora. O roteiro apresenta um sertão marcado por profundas injustiças sociais e personagens que se deslocam de um lugar a outro para conseguir escapar das dificuldades a que são submetidos.

Outro trabalho citado foi o do diretor Marcelo Gomes. Em Cinemas, aspirinas e urubus, um alemão, fugitivo da Segunda Guerra Mundial, vai se esconder no sertão brasileiro onde encontra um nordestino que vive em dificuldades. O filme discute justamente o contato de dois mundos separados fisicamente – o sertão do nordeste e a Europa em guerra –, como também separados no tempo, o nordeste do passado e o primeiro mundo do futuro. Embora ambos estejam percorrendo os mesmos lugares no nordeste, e ambos procurem uma vida melhor, seus caminhos são inversos. O primeiro sai do centro europeu para a periferia do nordeste brasileiro, enquanto o segundo sai do sertão para tentar a vida em direção à cidade.

Na platéia, cerca de 50 estudantes de comunicação e interessados no tema puderam fazer perguntas aos debatedores ao longo das mais de três horas de atividade.

A ficção no cinema

POR JAQUELINE DEISTER

A importância da literatura no cinema, do filme como retrato da sociedade e o efeito de realidade causado pela película foram os temas abordados na palestra do dia 15 de maio, Cinema:entre a ficção e a história.

Apesar do não comparecimento dos palestrantes mais aguardados, os professores Ismail Xavier (USP) e João Luiz Vieira (UFF), o auditório Paulo Freire, localizado no 3º andar do Bloco C no campus do Gragoatá, teve boa parte das suas cadeiras preenchidas por estudantes até o fim do evento.

A necessidade do cinema e da literatura recorrerem ao mito para focalizar a História foi defendida pela Prof. Dr. Vera Lucia (PUC-Rio). "O mito facilita a recriação de um espaço-tempo próprio do cinema, em que o presente o passado e o futuro podem dividir a mesma cena", disse Vera que traçou um paralelo entre a obra literária Iracema (1865) de José de Alencar e o filme Brava Gente Brasileira (2000) da cineasta Lucia Murat . Vera mostrou como a mesma Iracema de Alencar está presente ainda hoje nas obras de ficção do cinema e da literatura só que com ideais diferentes. E como que a recriação de obras mais antigas e atuais tem dificuldade em dialogar com a História, e buscam se apoiar em mitos para "construir" o efeito de real.

A doutora em Cinema Mariana Baltar, da UFF, abordou as dicotomias Real x Espetáculo e os travelogs, gênero muito popular nos anos 30 em que espécies de expedições eram documentadas e levadas para as "telonas". Mariana disse que o real junto com o entretenimento cria o maravilhar-se, e que o travellog é a descrição como forma de mostrar esse real. "O travelog convida o espectador a estabelecer um vínculo com o que está sendo visto", afirmou Baltar.

Para concluir a mesa, o estudante do doutorado em Cinema da UFF, Ivan Cappeler apresentou parte da sua tese. O estudo de Cappeler pretende mapear a relação do cinema com a História sem descaracterizar o cinema como meio de comunicação. "A abordagem da história no filme é uma questão técnica do cinema. Na verdade, consiste em pegar um determinado tempo, o fixar e reproduzi-lo buscando causar impacto na audiência” disse Cappeler. O doutorando pela UFF ainda destacou a importância do investimento em cinematecas e arquivos para preservar os filmes que são o 'retrato' de uma época", concluiu.

História da Mídia

POR CAMILLA FRANÇA

O dia da abertura do evento foi a data de comemoração dos 200 anos do fim da escravidão no Brasil. O congresso tinha o propósito de lembrar e saudar essa data. A abertura do seminário ficou nas mãos do pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFF, Humberto Machado, que é estudioso da imprensa abolicionista. O Instituto de Arte e Comunicação Social foi palco de palestras e apresentações sobre a história do rádio, da TV, do audiovisual, da mídia imprensa, da publicidade, por fim, reuniu todas as mídias. O auditório Florestan Fernandes, no prédio da faculdade de Educação, no Gragoatá, também foi cenário do congresso.

Pesquisadores, professores, jornalistas e profissionais que atuam nos meios audiovisuais e impressos estiveram presentes para mostrar estudos e histórias sobre a mídia brasileira. Estudantes e professores do Iacs também foram personagens.

No dia de fechamento, a sala 312 do Iacs reuniu professores, pesquisadores, alunos e pós-graduados que ouviram boas histórias sobre radio e telejornalismo. Locutor mineiro, Gil Horta Couto contou um pouco da História da rádio FM de Juiz de Fora. O jornalista Luciano Klöckner encantou a platéia com boas histórias sobre o sucesso e o fim da trajetória do Repórter Esso.

Já o pesquisador Álvaro Berfarah Junior narrou a história de José Eduardo Homem de Melo, um menino do interior de São Paulo que se encantou com rádio aos sete anos e hoje é produtor musical do Tim Festival e faz as vinhetas da Band News.

Goiabada de Marmelo

POR ALUISIO PEIXOTO

Monteiro Lobato, MPB, e "Geração 80" foram temas presentes na quinta sessão do Grupo de Trabalho sobre a História das Mídias Audiovisuais, na quinta-feira, dia 15. O GT contou com cinco apresentações que versaram sobre diversos assuntos, desde estudos de caso de programas televisivos até pesquisas sobre como se dá a recepção pelo público das mídias audiovisuais.

Maria Ana Quaglino abriu o GT fazendo uma análise da primeira versão do programa Sítio do Picapau Amarelo, dirigido por Júlio Gouveia e Tatiana Belinky nos anos de 1950 e 1960. Maria Ana comparou as representações de idade, gênero e raça no trabalho original de Monteiro Lobato com as presentes na adaptação para a TV.

Entre as questões relativas às visões políticas de cada versão, a autora observou que Lobato se mostrava favorável a um governo aristocrático e era benevolente em relação à escravidão. Já Gouveia e Belinky atacavam as formas autoritárias de governo e defendiam a República. Além disso, colocavam a questão da democracia na fala dos personagens (principalmente da Emília, que tornou-se o personagem central na versão televisiva).

A visão de cada um em relação aos gêneros também foi abordada. Enquanto nos livros os papéis masculino e feminino eram bem definidos - o Pedrinho ia caçar sacis sozinho e Emília e Narizinho eram boas nas tarefas domésticas - na televisão todos participavam das aventuras e Emília adotava uma postura radical contra o machismo.

Por fim, analisando a questão das raças, Ana Maria observou que Lobato reproduzia a mentalidade de sua época que acreditava na inferioridade dos negros e mestiços, retratando-os de maneira pejorativa. Na TV, a discussão a respeito do racismo foi silenciada, mas houve inclusão de elementos culturais africanos em alguns episódios.

Em seguida, Marildo José Nercolini fez uma análise da relação que a televisão estabeleceu com a MPB, especialmente a partir dos anos 60. Uma utilizou a outra como forma de ampliar seu público - a TV absorveu uma audiência originalmente ligada ao rádio, enquanto a Música Popular brasileira deixou de ficar restrita apenas aos círculos universitários.

Nercolini observou que, nessa época, a MPB buscou resgatar o apuro estético da bossa nova, mas também passou a se preocupar com o conteúdo, que precisava ser revolucionário ou, pelo menos, estar a serviço da conscientização das pessoas. Nesse sentido, notou a contradição existente no nascimento da MPB, que apesar do engajamento político, articulava-se dentro da dinâmica comercial, inserida no mercado musical.

Marina Caminha apresentou uma abordagem preliminar sobre as narrativas televisivas dos anos 80, tema que pretende utilizar em sua tese de doutorado. Entre os pontos levantados, destacou que, diferentemente da geração dos anos 60, que atacava duramente a cultura de massa, na década de 80 essa cultura é amplamente aceita.

Caminha chamou de "geração televisiva" os novos profissionais que começaram a atuar na televisão durante esse período, substituindo aqueles que trabalhavam no rádio e migraram para a TV em seus primórdios. Essa renovação trouxe programas que usavam a televisão para falar dela mesma, como Armação Ilimitada e TV Pirata. Também afirmou que desde os anos 90 tem havido a formação de "sujeitos televisivos", pois os telespectadores passaram a conhecer bem os códigos da televisão, mesmo que não fossem estudiosos do assunto.

Plínio Marcos Volponi fez uma breve análise sobre a formação e a sedimentação da televisão no Brasil, com destaque para a Rede Globo, que é uma emissora comercial, e a TV Cultura, de caráter público. Volponi falou sobre os benefícios fiscais e técnicos que a ditadura militar trouxe para a televisão, pois os meios de comunicação eram utilizados para difundir seus posicionamentos e dessa forma foram alvos de investimentos governamentais.

Tadeu Capistrano adiantou sua apresentação que seria realizada no dia 16 pela manhã sobre A teoria do espectador à luz das novas teorias audiovisuais, na qual observou que as pesquisas em Comunicação costumam analisar as capacidades perceptivas e cognitivas dos espectadores de modo ahistórico, sem levar em consideração o contexto sociocultural e tecnológico no qual estão inseridos. Por fim, houve debate entre os autores e demais presentes sobre as idéias abordadas durante as apresentações.

Jornalismo, Comunicação e Instituições

POR CARINA ANDION

Entre as atividades e grupos de trabalho voltados para as áreas de jornal impresso, audiovisual e rádio, uma palestra que se destacou foi a de Jornalismo, Comunicação e Instituições, que contou a presença da estudante Nayara Vasconcelos, apresentando sua pesquisa sobre a evolução do jornalismo em Poços de Caldas.

A estudante do terceiro ano de jornalismo da UNIFAE falou das principais características da imprensa no início, por volta de 1823, e dos poucos veículos que tentaram dar um tom mais alternativo às informações.

De acordo com Nayara, o caráter amador, a reprodução de assuntos ligados ao governo e notícias locais foi o que mais marcou a origem do jornalismo em Poços de Caldas. Embora tenham existido veículos como A Mantiqueira e Dois pontos, que tentaram se impor como opositores da mídia local, seus ideais duraram pouco. Hoje em dia, o jornal A Mantiqueira é um impresso como qualquer outro, e o jornalismo de Poços de Caldas não explora os fatos locais para se tornar um meio de informações aos habitantes da cidade, sendo apenas uma cópia das matérias divulgadas na grande mídia e servindo também como espaço publicitário.

GT de Rádio

POR LUÃ SOUZA MARINATTO

Um dos Grupos de Trabalho mais procurados do Congresso foi o sobre Rádio, acontecido no Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS) e mediado pela Professora Ana Baum no último dia do congresso. Para abrir o GT, Antónia Torres, da UFF, cantou a música contemporânea maranhense, acompanhada por instrumentos típicos da região. Depois, Álvaro Bufarah, professor da Fundação Armando Álvares Penteado, contou a história de Zuza Homem de Mello, produtor musical responsável por lançar nomes conhecidos da música brasileira. Zuza foi o primeiro a comandar sozinho um programa de rádio, no qual ele operava o som, escolhia as músicas e ainda apresentava. Por seu programa, veiculado pela Rádio Jovem Pan, passaram Tom Jobim, Elis Regina e Vinicius de Moraes, entre outros.

Também contando a biografia de um personagem importante na história da música brasileira, Eduardo Vicente – da Escola de Comunicação e Artes da USP – apresentou a palestra Música e Disco no Brasil: A Trajetória de André Midani. Nascido na Síria, Midani chegou ao Brasil para fugir da guerra na Argélia, em 1954. Um dia, questionado sobre o porque de ter escolhido o país para se proteger, ele respondeu: "Nunca havia ouvido falar, mas era o destino que eu podia pagar".

Contudo, André Midani se apaixonou pela música brasileira, e teve contato com nomes como Carmen Miranda e Dorival Caymmi. Midani enriqueceu vendendo discos de porta em porta, tornou-se presidente da Phillips e foi um dos descobridores do Tropicalismo, tendo gravado Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e Nara Leão. Já na década de 90, foi diretor da Warner na América Latina e figurou em uma lista das 80 pessoas mais importantes da história da música.

A seguir, Gil Horta Rodrigues, locutor de rádio em Juiz de Fora e mestrando da UERJ, falou sobre a Rádio Manchester, primeiro canal FM da cidade. A trajetória da Rádio, criada por Glauco Faceli em 81, é marcada pela inovação e por uma programação sempre voltada para o público jovem. Na seqüência, Cláudia Quadros, da Universidade Tuiutí do Paraná, trouxe informações sobre a vida de Wilson Martins. Para muitos o maior crítico literário do Brasil, Wilson também foi radialista no início de sua carreira.

A penúltima apresentação do GT sobre rádio ficou por conta de Luciano Klockner, da PUC do Paraná. Com o tema 40 anos sem o Repórter Esso, Luciano mostrou acontecimentos e curiosidades relacionados ao noticiário que foi um marco no radiojornalismo brasileiro. No ar por 33 anos, o Repórter Esso propôs inovações no meio jornalístico que vigoram até hoje no rádio e na televisão – que posteriormente também recebeu uma versão do noticiário. Por fim, com a responsabilidade de fechar a noite, a professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Valmi Musquer, falou sobre a programação jornalística pioneira das emissoras públicas.

Programação completa do GT sobre rádio:
- Cantando a história da Música Contemporânea Maranhense, por Antónia Torres, da UFF
- Zuza Homem de Melo, DJ, produtor, apresentador e operador de áudio. Tudo em um só programa, por Álvaro Bufarah, da FAAP
- Música e disco no Brasil: A trajetória de André Midani, por Eduardo Vicente da USP
- Memória do rádio: Manchester, o espectro mudou, por Gil Horta Rodrigues, da Uerj
- Wilson Martins: das ondas do rádio às páginas literárias, por Cláudia Quadros, da UTP
- 40 anos sem o Repórter Esso, por Luciano Klockner, da PUC – Paraná
- Programação jornalística pioneira das emissoras públicas de rádio: um radiojornalismo que não fez escola na radiofonia nacional?, por Valci Musquer, da UFSC

Cinema: Estudo Histórico e Construção da Realidade

POR LARISSA DE ANDRADE VERDIER

Quando o escritor José de Alencar criou a personagem Iracema, não imaginava que essa permaneceria atual em pleno século XXI. A atualidade e as diversas formas de representação da famosa índia foram apenas um dos temas abordados na mesa de estudos Cinema: entre ficção e a realidade, no dia 15 de maio, no Congresso.

Vera Lúcia, professora de letras da PUC do Rio de Janeiro, defendeu a atualidade da personagem de Alencar não só na literatura, mas também na música e especialmente no cinema. O mito de Iracema é utilizado como saída de uma realidade histórica oriunda da Europa e infeliz para a América Latina. Na ditadura, por exemplo, uma releitura da personagem denuncia as falácias do discurso de poder. A Iracema de Chico Buarque, por sua vez, está em território estrangeiro e coloca-se disponível para recomeçar a vida. Com o passar do tempo, "os mitos criaram vida própria, criando os mais variados discursos", disse Vera. Mas todos com o objetivo de mudar a realidade.

A relação entre tal realidade e o espetáculo foi enfatizada por Mariana Baltar, doutoranda da UFF. Mariana destacou os documentários dos anos 20 e 30, que traziam elementos representativos dos efeitos de real – como forma de estabelecer a crença na realidade narrativa – e de espetáculo. Esse estilo de documentário (com a fusão dos dois tipos de elementos) está presente hoje em programas do Discovery Channel e National Geographic. Ainda falando de realidade, o também doutorando da UFF Ivan Capeller, identificou possíveis relações entre o cinema e a história. Capeller estabelece quatro níveis de historicidade que podem ser identificados em qualquer filme. Tais níveis classificam o produto cinematográfico como objeto de produção e produto cultural, de forma simultânea.

O encontro dos estudiosos do cinema no Congresso de História da Mídia esclareceu a importância desta forma de arte na realidade nacional e na construção de um futuro melhor. O cinema também pode ser utilizado como instrumento de estudo da história de um país e determinação de uma nova realidade.

Pesquisador da UFF aborda mudança na concepção de surfe

POR SHEILA JACOB

Rafael Fortes, doutorando em Comunicação, estabelece a importância da mídia na valorização do esporte

Nas faculdades de Comunicação Social, é comum se discutir a colaboração da mídia para o aumento do consumo, a fabricação de necessidades, e a manutenção de preconceitos. Entretanto, esse "quarto poder" se estende muito mais, e é capaz de exercer influências em outras áreas, como, por exemplo, o esporte, transformando-o em mais um objeto de consumo. É exatamente sobre a relação entre o surfe e os meios de comunicação que se debruça o jornalista Rafael Fortes, doutorando em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua pesquisa, intitulada De "passatempo de vagabundos" a "esporte da juventude sadia": surfe, juventude e preconceito em Fluir (1983-1988), foi apresentada no Congresso. Com o trabalho, procurou mapear o papel da mídia na mudança do entendimento do surfe.

Rafael Fortes é formado em Jornalismo e História na UFF, e escolheu como objeto de análise a revista Fluir nos seus primeiros anos de circulação (1983 a 1988). "O interesse pelo surfe e pela sua articulação com os meios de comunicação vem há muito tempo, embora eu não seja surfista. Considero que a revista cumpriu um papel importante na 'estruturação' (pra usar uma palavra muito presente na publicação) do surfe brasileiro nos anos 1980", conta.

Fluir – Terra, Mar e Ar foi criada em 1983 por cinco amigos com a proposta de se firmar como principal revista de esportes radicais do país. Fortes explica que "para se estabilizar comercialmente e dar lucro, entretanto, era preciso que o surfe se organizasse e estruturasse profissionalmente, para que o interesse não fosse só um modismo, como aconteceu por volta de 1977, inclusive com outros esportes". Ele lembra que, na década de 1970, o surfe não era reconhecido pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), poucos brasileiros estavam envolvidos, não existia uma associação responsável por sua organização no país, e ainda havia pouco investimento por parte das empresas.

E é nesse contexto de desvalorização que nasce a revista. Por um lado promove e apóia intercâmbios, campeonatos profissionais e amadores, faz a cobertura da participação de brasileiros em torneios no exterior, "e até mesmo co-patrocina a ida de um atleta para competição na África do Sul", comenta Fortes. A revista apresentava propostas, entrevistava surfistas, publicava resultados de campeonatos e anunciava previamente alguns deles. Mas, principalmente, preocupava-se em afirmar insistentemente a seriedade do esporte e dos envolvidos com ele. E como isso era feito? "Isso se dá tanto pela celebração de iniciativas e acontecimentos considerados positivos quanto pela denúncia e resposta àqueles enquadrados como negativos".

Por exemplo: começou a repetir constantemente que o surfe já estava sendo entendido um esporte sério, enquanto no passado, os praticantes eram considerados "criminosos ou alienados". Também chegou a assumir posturas políticas mais restritas, mesmo que poucas vezes, como apoiar a Campanha das Diretas Já. Também se preocupava em combater o estigma de drogados que acompanhava os praticantes. "Romper a associação entre surfista e maconheiro fazia parte do esforço para legitimar o esporte como algo sério e confiável, em que as empresas poderiam e deveriam investir tranqüilamente, sem temer a falta de profissionalismo", explica Fortes.

Outro problema associado aos surfistas é a violência, que realmente cresceu junto com o aumento do número de praticantes na água. O que fazer, então? "Vários editoriais clamam por uma mudança de atitude dos adeptos. Chamava-se atenção sobre campeonatos em Santa Catarina em que se destacava a presença de pais e familiares". Fortes também considera importante os personagens surfistas "com uma imagem limpa e positiva" interpretados pelos atores globais Kadu Moliterno e André de Biase.

Pela campanha da revista houve um crescimento estrondoso do surfe e do investimento, além de uma melhoria na imagem. A cobertura enfatizava os aspectos positivos, como o aumento do número de praticantes e espectadores nos campeonatos e o crescimento da venda de produtos. Assim, ao mesmo tempo em que aumentava a procura do público, mostrava aos anunciantes a existência de uma gama maior de consumidores. E hoje? "Me parece que houve sucesso na melhoria da imagem do surfe e dos surfistas. É bom destacar que esse esforço não foi só da Fluir, mas também de todos os envolvidos com o esporte, como atletas, patrocinadores, empresários, outros veículos de comunicação etc", analisa Fortes. Como resultado, a transformação de "passatempo de vagabundos" em "esporte da juventude sadia". Mais um ponto para a mídia.

Pesquisadores discutem passado, presente e futuro.

POR TATIANA BORGES MACHADO

Como a relação entre mídia e história será abordada nos estudos na área de comunicação? Essa foi a principal questão em debate na mesa Mídia e História: Tendências futuras. As pesquisadoras Ana Maria Mauad (UFF), Ana Paula Goulart Ribeiro (UFRJ), Sônia Virgínia Moreira (UERJ) e Lúcia Maria Alves Ferreira (UNIRIO) apresentaram e discutiram as próprias teses de pós-graduação na tarde do dia 13 de Maio de 2008, no VI Encontro de História da Mídia. A professora da UFF, Ana Lúcia Silva Enne, foi a mediadora das palestras que aconteceram no auditório da Faculdade de Educação, da Universidade Federal Fluminense.

A professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Ana Maria Mauad, abriu a discussão. A tese Memórias do Contemporâneo: fotografia, intertextualidade e os tempos da história mostra a relação entre prática fotográfica contemporânea e os tempos históricos. A apresentação foi feita a partir de três fotos de presidentes brasileiros: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e Tancredo Neves. Os fotógrafos explicavam, em gravações de áudio, como conseguiram registrar a imagem em destaque na tela e Ana Mauad contextualizava o momento e as idéia presentes no estudo.

A segunda a se apresentar foi a professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Paula Goulart Ribeiro. A partir de um panorama dos estudos sobre a história da imprensa brasileira, a professora fez um balanço dos desafios e impasses que os pesquisadores enfrentam tanto em termos teóricos como metodológicos. Ana Paula criticou o fato de poucos trabalhos históricos utilizarem a mídia como objeto de reflexão, embora os meios de comunicação sejam fontes de consulta para a maioria das pesquisas.

Para a professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Sonia Virginia Moreira, os congressos e debates sobre a imprensa são essenciais para os pesquisadores: "Quando nos reunimos em oportunidades como essa, aprendemos com os estudos dos nossos colegas e aprofundamos ainda mais nossos trabalhos, por isso, fiz questão de estar presente aqui".Sonia Virginia é autora do livro Rádio Palanque – fazendo política no ar e defendeu o resgate da história e o registro das tendências do rádio na mídia impressa e em livros. Na palestra, destacou como a consulta a revistas, jornais e livros autobiográficos é estimulante para os pesquisadores de rádio, pois ajudam a contar, por meio de diferentes versões, a história do veículo.

As palestras terminaram com o enfoque lingüístico da professora do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO, Lucia Maria Alves Ferreira. O objetivo da apresentação foi analisar a produção de sentidos e de memória no discurso dos meios de comunicação. Para isso, a professora examinou a forma como a mídia impressa e eletrônica abordou a libertação dos reféns colombianos. A professora quis mostrar como a imprensa cria, por meio da linguagem, "fatos que falam por si só". Depois de duas horas de apresentações, as pesquisadoras ainda responderam, por uma hora, perguntas de estudantes e de outros professores presentes no evento.

Professores em busca de novas tendências

POR IURY

No dia de estréia do VI Congresso Nacional de História da Mídia, a mesa mediada pela Professora Ana Lúcia Silva Enne, da Universidade Federal Fluminense (UFF), lotou o auditório Florentan Fernandes. Em discussão, as tendências futuras em um colóquio sobre mídia e história.

A professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Maria Mauad, apresentou a relação entre a prática fotográfica contemporânea e os tempos históricos inscritos, através de referências intertextuais.

- Os fatos e fotos relacionados por contexto, consumo e memória social são formas de conhecer, identificar e comunicar. As fotos se inserem na história e em sua leitura, é como se fosse a ponta de um iceberg, pois puxa o momento na mente do espectador – explica a doutora em História Social e pós-doutorado no Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP).

Pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem da UFF desde 1992, Ana Maria Maud disse que a foto é estável nos tempos modernos e continua a nos emocionar e fez a diferenciação de três tipos de tempos históricos.

- Tem-se o tempo atribuído, quando as datas revelam mais que vestígios, elas são semelhantes ao acontecimento. O tempo vivenciado encontrado no regime da instantâneidade onde a foto pode entrelaçar narrativas sociais e o tempo incorporado existente no "concerned photograph", o jornalismo heróico – analisa Ana Maria Mauad.

Ana Paula Goulart Ribeiro fez um balanço teórico e metodológico do bicentenário da imprensa no Brasil. Doutora em Comunicação e Cultura e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Paula afirma que devido ao aniversário do jornalismo brasileiro em 2008, novos trabalhos e pesquisas trazem mais visibilidade à Comunicação Social.

- As análise da comunicação privilegia problemas contemporâneos. Na História, a mídia é tratada como fonte menor, são fontes históricas, documentações.

Para a professora, o encontro serviu para aprofundar os debates em torno de questões teóricas e metodológicas para os historiadores de comunicação da mídia, assim como apontar o crescimento das pesquisas não correspondeu ao amadurecimento das reflexões.

- São poucas as pesquisas comparativas e poucos os trabalhos de síntese. Se esgota-se em si mesmo, não ajuda no desenvolvimento do campo. O caráter descritivo é mais forte que o caráter analítico – observa Ana Paula Goulart.

O meio de comunicação mais popular é o rádio. E esse é o alvo dos estudos de Sônia Virgínia Moreira, mestre em Jornalismo pela Universidade do Colorado, nos EUA, e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) também presente na mesa de debates. Ela apontou o rádio como objeto de investigação crescente não só em comunicação, mas em outras áreas de conhecimento.

- Nós já temos outro dado frente ao feito anteriormente. A Academia achava que o rádio não era objeto de pesquisa. Os primeiros estudos ocorreram nos meados da década de 1980 para 1990, referentes à História do Rádio – critica Sônia Moreira.

Com vários livros na área de radiodifusão, ela abordou a questão do uso político do rádio, ponto importante já que narra experiências reais afetadas pela memória e envolvimento pessoal com fatos e personagens integrantes da narrativa.

- Em um primeiro momento, os políticos eram donos de rádio. Em um segundo momento, os radialistas se elegem políticos e legislam em causa própria e, o quadro mais atual, políticos se elegem pelo rádio, mas não se envolvem com o veículo – denuncia Sônia Virgínia Moreira em sua apresentação.

Mídia e Língua são campos intercruzados, por isso, Lúcia Maria Alves Ferreira estuda a discursivização da história do presente da mídia impressa. Docente no Programa de Pós-Graduação em Memória Social pela Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), ela também coordena o projeto Representações nos Discursos Midiáticos. Lúcia Maria tem como foco o caso da troca de reféns mantidos presos pela Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Segunda a lingüista, o que se narra é o pré-fato porque a troca não ocorreu até hoje.

- A mídia tem feito a história e não tem reproduzido os fatos. O discurso do jornalismo aciona a memória constituída e o faz trabalhar a seu favor ao consultar especialistas, por exemplo – conclui a lingüista da UniRio.

Com o bicentenário da imprensa no Brasil, novos olhares são lançados na Comunicação Social e percorrem meios conhecidos, como o rádio, mas sob novas perspectivas. A fotografia e o discurso das grandes cadeias de informação incorporam teorias e metodologias de análise. As tendências futuras dos historiadores da mídia estão a pleno vapor.

Congresso chega ao fim

POR AMANDA HENRIQUES

As atividades do Congresso foram encerradas na última sexta-feira. Realizado pela Universidade Federal Fluminense, o evento apresentou palestras de pesquisadores e grupos de trabalho sobre diferentes recortes na abordagem da História da Mídia.

O congresso contou com os próprios alunos na organização e teve, inclusive, a presença de pesquisadores europeus e latino-americanos como Luís Humberto Marcos (Museu da Imprensa - Portugal), Isabel Vasques (Universidade de Coimbra – Portugal) e Juan Garguverich, do Peru.

Na última quinta-feira, o Grupo de Trabalho Jornalismo e Política chamou atenção. Os estudos dos pesquisadores abordaram o ritual de posse na democracia e a influência em mão-dupla entre imprensa e a situação política do país em diferentes momentos da História.

Confira detalhes sobre esse grupo de trabalho no Blog da Cobertura

Relações Públicas: Jornalismo, Comunicação e Instituições

POR NATÁLIA CHAVES

Após quatro dias de programação, o Congresso chegou ao fim. A última sessão do Grupo de Trabalho de Relações Públicas abordou o tema Jornalismo, Comunicação e Instituições. Quatro expositores mostraram seus trabalhos a uma pequena platéia, sob a coordenação de Claudia Moura, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Marcelo Carmo Rodrigues, estudante da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), apresentou o trabalho Revista Viagem e Turismo: para onde foi o 'jornalismo turístico' em 2007?, em que analisou a revista de turismo sob o ponto de vista jornalístico. Ele avaliou doze capas consecutivas para tentar entender também como é feita a escolha dos destinos turísticos. Segundo Marcelo, o turismo é muito maior do que revistas desse segmento mostram, perguntando-se se turismo pode ser realmente contado.

O segundo expositor foi César Daniel de Assis Rolim, da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRS), que falou de forma breve sobre seu artigo Plantão Militar: nacionalismo e reformismo militar no periódico Última Hora. O trabalho se prende principalmente à coluna Plantão Militar, em que militares nacionalistas se manisfestavam entre os anos 1963 e 1964.

O terceiro trabalho faz parte do projeto "Memória.com" da UNIFAE, de Minas Gerais. Alunos do curso de jornalismo pesquisam durante um ano a história da imprensa de cidades mineiras. A estudante de jornalismo do 3º ano, Nayara Vasconcelos, expôs aos participantes o surgimento da imprensa na cidade de Poços de Caldas.

O GT terminou com a apresentação do arquivista Marcelo Nogueira de Siqueira, do Arquivo Nacional, com o trabalho O Correio da Manhã e seu acervo documental: História e Memória. Marcelo explicou que o jornal é o segundo documento mais consultado do Arquivo Nacional atualmente. O objetivo de seu trabalho foi identificar e mapear o acervo arquivístico do períodico que existiu entre os anos de 1901 e 1974.

História da Mídia Sonora

POR PAULA TAVARES

Em cada sala do prédio do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), os grupos debatiam a História de um tipo diferente de mídia (Sonora, Impressa, Televisiva etc). Na sala 312, professores de Universidades de todas as regiões do Brasil, coordenados pela professora Ana Baum, da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentaram seus artigos sobre a História da Mídia Sonora.

Foram apresentados trabalhos sobre diversos períodos. As três horas de debate foram uma boa lição de História do Rádio para os alunos iniciantes e os estudiosos do tema. Dentre as apresentações que se destacaram, estão as do Professor Luciano Klöckner, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), em Porto Alegre, e a apresentação da Professora Valci Regina Zuculoto, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Luciano falou sobre seu artigo 40 anos sem o Repórter Esso e deu destaque aos principais jornalistas, às coberturas mais marcantes e ao impacto e à credibilidade que o programa tinha na vida das pessoas. Isso sem contar a saudade que deixou no público daquela época, que até hoje se recorda com nostalgia do programa.

Já Valci Regina falou sobre as programações jornalísticas pioneiras das rádios públicas. O objetivo principal da apresentação de Valci foi mostrar que, apesar de, com as rádios comerciais, isso ter se perdido um pouco, o início do rádio tinha uma intenção bastante educativa e intelectual. "O rádio brasileiro nasceu com ideais culturais e educativos, preservando, nessas suas metas principais, um papel constitutivo à informação e, portanto, ao jornalismo", destaca Valci.

(Os artigos apresentados no Congresso estarão, em breve, disponíveis no site da UFF, no link Eventos).

sexta-feira, 16 de maio de 2008

De portas abertas - Rede Alcar

POR CINTHIA SAYURI

Até o fim dessa semana, alunos e professores podem aproveitar a presença de pesquisadores brasileiros da Rede Alcar e de outras nacionalidades que participam do VI Congresso Nacional de História da Mídia. Ao todo, serão apresentados 482 trabalhos, divididos por assuntos como História da TV, do rádio e de jornais.

Vale lembrar que Rede Alcar é um dos maiores projetos de pesquisa do Brasil e um dos pioneiros na América Latina para o levantamento do histórico completo das principais mídias do país. A rede se divide em 10 grupos de acordo com a mídia escolhida (TV, rádio, jornal etc) e qualquer pessoa interessada no assunto pode passar a fazer parte do grupo. Ontem, dezenas de pessoas, entre convidados, docentes e discentes, compareceram à Plenária de Constituição da Rede Alcar.

Para Marialva Barbosa, do curso Estudos de Mídia da UFF, professora há 31 anos e autora da pesquisa que resultou no livro História e Cultura da Imprensa Brasileira de 1900 a 2000, o Congresso é uma boa oportunidade para os estudantes buscarem contatos e idéias que lhe sirvam, por exemplo, como auxílio a projetos acadêmicos.

"A história é o espelho do passado para projetar o futuro. Temos que aprender com ela para não repetir os erros e aperfeiçoar os acertos", explica José Marques Melo, fundador da Rede Alcar - nome em homenagem ao jornalista Alfredo de Carvalho, que fez um estudo da mídia de todo o século XIX.

O encontro de ontem também reuniu convidados internacionais, entre eles os professores Célia Del Palacio, do México, e Juan Garguverich, do Peru. Célia é presidente da Rede de História da Imprensa Ibero-Americana em seu país e elogiou a rede de estudos de história de mídias brasileira, classificando-a como uma das "maiores do mundo" no assunto. A docente da Universidade de Guadalajara afirmou que entre os diversos pesquisadores mexicanos, há, por exemplo, médicos e enfermeiros.

Planos

Segundo Marialva, há ainda um projeto de rede entre Brasil e Argentina, que constituiria um estudo conjunto acerca da dimensão das manifestações midiáticas, nos dois países, ao relatar fatos como a chegada do homem à Lua ou o Maio de 68.
Uma das justificativas para o empenho nesse tipo de pesquisa, segundo Marialva, está no fato de a História significar muito mais que apenas datas: "Existe uma visão muito errada nesse campo. Descobrir a História com um olhar sobre os processos sociais do indivíduo possibilita melhor entendimento dos processos jornalísticos também."

Consulta

Os mais de mil estudos já produzidos estão no site da Rede Alcar.

Dianne Cooper-Richet no Congresso Nacional de História da Mídia

POR BIA APARECIDA



A primeira palestra do Congresso foi apresentada por Diane Cooper-Richet, professora da Universidade de Versailles Saint Quentin en Yvelines. Cooper-Richet veio apresentar projeto em parceria com Jean Yves Mollier, integrante do Centro de História Cultural das Sociedades Contemporâneas da mesma universidade, que não pôde comparecer. A professora leciona com Mollier, com que inclusive já escreveu um livro.

Quando perguntada da importância de se estudar a história da mídia no país, ela é incisiva e até generosa: "É muito importante essa troca de conhecimento Brasil-França, pois o Brasil, apesar de ser um país novo, não precisa cometer os mesmos erros no que tange à História dos Meios de Comunicação de massa que todos os outros [europeus]".

O artigo apresentado Os meios de comunicação de massa na construção da nação: O caso da França veio ilustrar de forma eficaz a importância dos meios de comunicação de massa na história política e social da França. O artigo narra a história do país desde o final do século XVIII, quando parisienses exigiam a abolição da monarquia com exemplares nas mãos de Ami du Peuple ou Père Duchaine, até os dias atuais. Segundo Yves Mollier, a população francesa tem opiniões tão diversificadas quanto títulos de jornais diários, Le Monde, L’Observateur e o sucesso internacional e nacional do terceiro-mundista Le Monde Diplomatique. A narrativa dos acontecimentos históricos da França é feita com o meio de comunicação de massa sempre em primeiro plano, deixando clara a importância do estudo da História da Mídia em qualquer país.

Em São Paulo, a professora Diane tem um grupo de estudo de História da mídia no Brasil, que inclui estudantes da Universidade de São Paulo (USP), professores e pesquisadores. Nesse projeto, os integrantes do grupo estudam a introdução e as influências da literatura e dos romances ingleses, portugueses, belgas e franceses na mídia brasileira. A professora Sandra Vasconcelos, da USP, também faz parte do grupo.

Historiografia Luso-Brasileira: Influências e Confluências

POR JULIANA ROMANO



A construção da historiografia do jornalismo português, influências dessa mídia e o papel da imprensa na abolição da escravidão no Brasil foram os principais temas da palestra desta quarta-feira. Participaram da mesa o professor e jornalista Jorge Pedro de Sousa, da Universidade Fernando Pessoa, de Portugal, e Humberto Machado, pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Federal Fluminense. A mediação foi de Aníbal Bragança.

Com calorosa recepção do público presente, o professor Jorge Pedro Sousa falou sobre um projeto desenvolvido sob sua coordenação, que visa à recuperação das contribuições de autores portugueses sobre o jornalismo do país. O trabalho reúne 91 obras até o ano de 1974 e conta com diversos autores, entre eles Augusto Xavier da Silva, Alfredo da Cunha e José Manuel Tengarrinha, considerado pelo professor o introdutor da nova história do jornalismo português.

Jorge Pedro não pôde se aprofundar nos temas abordados pelas obras inventariadas, mas fez um breve resumo das contribuições para a imprensa. E destacou como ponto importante o início da mídia como instituição social, "no século XIX houve uma conscientização social e acadêmica sobre a importância do jornalismo".

Em seguida, com o foco voltado para o papel da imprensa na abolição dos escravos, Humberto Machado fez uma retrospectiva dos jornais brasileiros e contou sobre a abordagem de progresso, civilização e ciência adotada pelos jornais a partir de 1870. O professor lembrou a Gazeta do Rio de Janeiro, o que gerou uma manifestação do público, já que há controvérsias sobre a importância desse periódico, que relatava principalmente ações governamentais da corte portuguesa. Machado também falou sobre o lançamento do Correio Braziliense em Londres, em função da censura prévia que ocorria no Brasil da época.

Humberto fez alusões à exposição de Jorge Pedro e destacou semelhanças na história da imprensa do Brasil e de Portugal. O professor lembrou os 120 anos de abolição legal da escravidão e fez uma reflexão sobre as conseqüências da sociedade escravista vivida no Brasil até o século XIX, que perduram até os dias atuais.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Abertura do Congresso

POR RENATA SOUTO




Hoje, às 9h, no auditório da Faculdade de Educação da Universidade Federal(UFF), teve início o VI Congresso Nacional de História da Mídia, cujo tema central são os 200 anos de mídia no Brasil. O evento contará com grandes teóricos da comunicação latino-americana.

A mesa de abertura foi formada pela professora Marialva Barbosa, coordenadora do Congresso; pelo presidente da Intercom, José Marques de Melo; o pró-reitor de Pesquisa da UFF, Humberto Fernandes Machado; o presidente da Biblioteca Nacional, Muniz Sodré e a diretora do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), Mara Eliane Rodrigues.

Quem participar do evento pode esperar um grande aprofundamento na história da imprensa. "O tema é interessante para pensarmos sobre as tendências da comunicação", explica a professora Marialva Barbosa.

A ocasião da abertura serviu também para homenagear os ex-professores da USP José Marques de Melo, criador da rede nacional de pesquisa de História da Midia e Muniz Sodré, fundador do Departamento de Comunicação.

"A gente realiza nosso trabalho sem esperar nenhuma recompensa. Quando recebemos o reconhecimento dos nossos próprios colegas a emoção é ainda maior", afirmou José Marques de Melo. "Mais que comemorar os 200 anos, nosso desafio é mudar o Brasil para chegarmos aos 300", completou.

domingo, 11 de maio de 2008

VI Congresso Nacional de História da Mídia

Esse é o Blog da Divulgação do VI Congresso Nacional de História da Mídia. Aqui você terá alguns detalhes sobre o evento, sua programação, conferencistas e informações adicionais. Acompanhe!